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| Os Maias - Simbolismos |
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| Ensino Médio - Português | |||||||||||||
| Escrito por Milena Queiroz Gonçalves Santos | |||||||||||||
| Qui, 06 de Novembro de 2008 19:02 | |||||||||||||
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Professor particular de inglês Maria Eduarda é a terceira figura feminina na panóplia de três gerações da família Maia apresentadas na obra. Simbolicamente, o número três é o número da completude e implica a conjugação de três momentos temporais: o passado, o presente e o futuro, ou seja, a mulher aparece na obra como um factor de transformação do mundo masculino, conduzindo à esterilidade, à estagnação. O terceiro elemento feminino torna-se a revelação simbólica dos outros dois que foram nefastos à família.
Ainda relacionado com este simbolismo, é interessante ver a relação simbólica que, metonimicamente, se pode estabelecer entre os três lírios brancos que Carlos vê dentro de um vaso do Japão, quando, pela primeira vez, tem acesso ao espaço físico onde Maria Eduarda se move, a sua casa, na Rua de S. Francisco, e as três mulheres que penetram na família Maia. Apesar da brancura dos lírios (conotada na tradição oriental com o luto), as flores murcham num vaso do Japão. A cultura europeia presente na decoração contracena com a cultural oriental, na qual a alvura representa a morte: a morte física de Maria Eduarda Runa e de Maria Monforte e a morte moral e espiritual (num tempo futuro) de Maria Eduarda Maia. Os lírios brancos, à partida conotados com a pureza, perdem a sua conotação positiva ao murcharem e passam e simbolizar a morte. O lírio concentra a ideia de prosperidade da raça, continuada de geração em geração. Por outro lado, o facto dos três lírios brancos se encontrarem num vaso do Japão aponta já para o incesto, pelo exotismo que representa esta peça decorativa, pois insere no espaço físico de Maria Eduarda uma cultura estranha à cultura ocidental.
Saliente-se que Carlos e Maria Eduarda terão os seus encontros quer na Toca, marcada por uma decoração excêntrica e exuberante, quer no quiosque japonês, pelo que retoma a simbologia de uma cultura estranha neste espaço.
A Toca é o nome dado à habitação de certos animais, apontando desde logo para o carácter animalesco do relacionamento amoroso entre Carlos e Maria Eduarda. Carlos introduz a chave no portão da Toca com todo o prazer, sugerindo não só poder mas também o prazer das relações incestuosas (é de lembrar que a chave é um símbolo fálico). Da segunda vez que se alude à chave, os dois amantes experimentam-na o que passa a simbolizar a aceitação e entrega mútua. Os aposentos de Maria Eduarda simbolizam a tragicidade da relação, estando carregados de presságios: nas tapeçarias do quarto “desmaiavam, na trama de lã, os amores de Vénus e Marte”, de igual modo este amor de Carlos e Maria Eduarda estava condenado a desmaiar e desaparecer; “... a alcova resplandecia como o interior de um tabernáculo profano...” misturando o sagrado e o profano para simbolizar o desrespeito pelas relações fraternas. Assim, a descrição do quarto tem traços próprios de um local dedicado ao culto: a porta de comunicação “em arco de capela”, donde pendia “uma pesada lâmpada da Renascença” conferindo maior solenidade. Com o sol, o quarto “resplandecia como (...) um tabernáculo. Carlos mostrava-se indiferente aos presságios, inconsciente e distante, mas Maria Eduarda impressiona-se ao ver a cabeça degolada de S. João Baptista, que foi degolado por ter denunciado a relação incestuosa de Herodes, e a enorme coruja a fitar, com ar sinistro, o seu leito de amor (lembre-se que a coruja é considerada uma ave de mau agoiro, que surge aqui para vaticinar um futuro sinistro para este amor). O ídolo japonês que há na Toca remeta para a sensualidade exótica, heterodoxa, bestial desta ligação incestuosa. Os guerreiros simbolizam a heroicidade, os evangelistas, a religião e os troféus agrícolas, o trabalho que terão existido na família Maia (e no Portugal). Os dois faunos simbolizam os dois amantes numa atitude hedonista e desprezadora de tudo e de todos. Na primeira noite de amor entre Carlos e Maria Eduarda, a qual se dá precisamente na Toca, dá-se uma grande trovoada como que a pressagiar um mau ambiente que se criaria resultante deste incesto.
Maria Eduarda tem receios, desconhece a sua verdadeira identidade, mas que perscruta o futuro através da análise de pequenos pormenores das coisas ou das pessoas, análise essa que assume um valor simbólico ou premonitório, como acontece quando ela descobre semelhanças entre Carlos e a sua mãe. O Ramalhete está simbolicamente ligado à decadência moral do Portugal da Regeneração. O ramo de girassóis que ornamenta a casa simboliza a atitude do amante, que como um girassol, se vira continuamente para olhar o ser amado; girando sempre, numa atitude de submissão e de fidelidade para com o ser amado, o girassol associa-se à incapacidade de ultrapassar a paixão e a falta de receptividade do ser amado, ligando-se assim a Pedro e a Carlos. Os móveis do escritório de Afonso estão cobertos de panos brancos que são comparados a mortalhas com que se envolvem cadáveres, prenunciam já a morte que se abaterá na família Maia. Concentra em si o peso da fatalidade familiar, que lhe foi atribuída por Vilaça num relatório sobre a casa que enviou a Afonso, o qual se riu da observação; mas de facto é lá que morre Pedro na sequência do abandono de Maria Monforte, e é lá também que Afonso vai morrer de desgosto após descobrir o incesto dos netos.
O jardim do Ramalhete é rico em simbologias. Numa primeira e última fases, este espaço evidencia a tristeza e o abandono, e na desolação do jardim, sobressaem três símbolos do amor puro e imortal. O cipreste (símbolo da morte) e o cedro (símbolo do envelhecimento), unidos entre si por laços quase míticos que se perdem nos anais da mitologia grega, inseparáveis em vida, envolvidos num amor puro e forte e cuja recompensa foi a união incorruptível das suas raízes, que a tudo resistem, emblematizando o Amor Absoluto; podendo ainda estar ligados ao mundo romântico por serem árvores de cemitério conotadas com a morte; acabam por simbolizar duas personagens românticas mas que na teoria se dizem realistas e que no final da obra ficam tão sós como estas duas árvores: Carlos e Ega. Velada por este par imortal, encontramos Vénus Citereia, deusa do amor, ligada à sedução e à volúpia, liga-se às três fases do Ramalhete: numa primeira fase relaciona-se com a morte de Pedro “enegrecendo a um canto”; numa segunda fase e após a remodelação, aparece em todo o seu esplendor simbolizando a ressurreição da família para uma vida feliz e harmónica (a sua recuperação coincide com o aparecimento de Maria Eduarda), deixando adivinhar prenúncios de uma desgraça futura, enquanto símbolo da feminilidade perversa; na terceira e última fase, enquanto símbolo do Amor e do Feminino, aparece aos nossos olhos coberta “de ferrugem”, simbologia negativa, assumindo-se como duplo de Maria Eduarda, último elemento feminino que, através do amor, destruiu para sempre a frágil harmonia da família Maia. O facto da estátua ser de mármore simboliza o universo clássico, numa nítida tentativa de relembrar a tragédia clássica; por outro lado, o mármore liga-se ao cemitério por ser frio como a morte, e por ser o material usado nas campas. A cascata é, na tradição judaico-cristã, símbolo de regeneração e de purificação; cheia de água, conota-se com o choro, com as lágrimas, num nítido prenúncio da tristeza que se abatera sobre os Maias; como numa clepsidra, a água fluirá gota a gota, marcando a passagem inexorável do tempo e, acentuando melancolicamente, o implacável Destino d’Os Maias, condenados ao desaparecimento, após a doçura ilusória de uma “instante” que durou dois anos.
“Maria Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos!” Pressagiava de facto, mas de maneira trágica. Também a semelhança do nome das três figuras femininas centrais parece apontar para que todas elas são fatais, à sua maneira, aos homens da família Maia – Maria Eduarda Runa, Maria Monforte, Maria Eduarda – todas Maria e, a primeira e a última Maria Eduarda, concorda também nos seus próprios destinos, todas morreram, se bem que as duas primeiras fisicamente e a última psicologicamente.
Há ainda que salientar a similitude física entre Carlos e Maria Monforte, sugerida por Maria Eduarda, e a semelhança de carácter de Afonso e Maria Eduarda, sugerida por Carlos quando vê que Maria Eduarda é tão bondosa como o avô – Maria Eduarda pede-lhe para ir ver a irmã da sua engomadeira que tinha reumatismo, e o filho da Sr.ª Augusta, a velha do patamar, que estava tísico; Carlos cumpria estes encargos com o fervor de acções religiosas.
Afonso encontra sérias semelhanças entre seu filho, Pedro, e um tio da família Runa que endoideceu e se enforcou. Estas semelhanças agoiravam já o futuro de Pedro que, tal como o tio, se suicidou, mas este com um tiro na cabeça, morrendo alagado numa poça de sangue.
Maria Monforte estava lendo uma novela sugerida por Alencar, em que o herói era o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo, como estava fascinada por ele, quis dar esse nome a seu filho, pois parecia ser pleno de um destino de amores e façanhas. De facto, Maria Monforte estava certa, o incesto era o destino amoroso de Carlos que acabou por levar a que este seja o último dos Maias. Contrariamente a Maria Monforte, Pedro queria chamar Afonso ao filho, mas acabou por aceder a Carlos Eduardo.
Afonso recebe, por Vilaça, a notícia do casamento de Pedro, com o qual não concordara, e quando se senta “à mesa do almoço posta ao pé do fogão” vê que “ao centro um ramo esfolhava-se num vaso de Japão, à chama forte da lenha”. Isto pressagiava o fim do “romance” de Pedro e Maria Monforte pois este enlace iria desfazer-se e desaparecer, como aquelas folhas secas que à chama forte da lenha se esfolhavam no vaso de Japão. E Pedro, um dos Maias, separar-se-ia depois, pelo suicídio, do tronco familiar.
Carlos com um profundo sentimento de culpa dirige-se da Rua de S. Francisco para o Ramalhete pensando que, depois de ter cometido o incesto consciente, é-lhe impossível recomeçar a sua vida, tranquilamente, na presença do avô e de Ega.
No momento da chegada de Carlos ao Ramalhete, no exterior “os candeeiros ainda ardiam”, porém o advérbio de tempo “ainda” indica que a escuridão está prestes a acabar, dando lugar à luz do dia. Mas no interior reinava a escuridão, e Carlos procurava uma luz para iluminar os seus passos e o se comportamento, é que moralmente sentia-se também às escuras.
Neste momento de hesitação surge o avô com uma luz, manifestada primeiro como claridade que vai crescendo, e depois se torna num clarão, numa luz bem definida. Podemos descortinar nesta luz um simbolismo: o avô sempre representou a luz uma luz para Carlos que lhe dissipava os momentos de incerteza e o orientava na vida. Mas agora “estava lívido”, descorado pelas dúvidas, os seus olhos estavam vermelhos, não só por ter passado a noite em claro, mas pelo sofrimento. A luz de antigamente apagara-se e agora o avô não se encontrava ali para orientar mas para pedir contas, para recriminar.
A luz do avô agora assustava Carlos porque este, cedendo ao prazer pecaminoso, tornou-se cúmplice do mal e do poder das trevas. Não admira que entrasse no quarto às escuras, sem rumo, desorientado, tropeçando num sofá, sem saber o que fazer. A imagem do avô ficou gravada no neto, sobretudo através de duas cores: o lívido do rosto e o vermelho da vela e dos olhos, ambas de natureza negativa que apontam para a morte. A partir desta confrontação, a vida perdera todo o sentido para ele.
Foi preciso ser anunciado o sol e a luz do dia para ele reagir a este estado depressivo que o dominava e adormecer. Através da evasão do sono, logrou fechar as portas à luz do dia e da razão, e mergulhar na escuridão que é o antegosto da morte.
Um prolixo cromático povoa Os Maias, cumprindo não só os postulados do impressionismo, mas também os do simbolismo.
O vermelho tem na obra um carácter duplo: ora feminina e nocturna, centrípeto, ora masculina e de poder centrífugo. Maria Monforte e Maria Eduarda são portadoras de um vermelho feminino, fogo que desencadeia a libido e a sensibilidade, espalham a morte provocando o suicídio de Pedro, a morte física de Afonso e a morte psicológica de Carlos. Já os olhos vermelhos de Afonso e a vela vermelha que ele trazia na mão incomodaram tanto Carlos que este anteviu a morte, que de facto estava para acontecer no jardim do Ramalhete.
A casa do Ega, a Vila Balzac, tem uma grande concentração de cores, dispostas em espaços bem definidos: “verde feio e triste” na sala, sala de jantar amarela, quarto vermelho, cozinha verde e branca. O vermelho do quarto é tão intenso que indica a dimensão essencialmente libidinosa, carnal e efémera dos encontros de amor com Raquel Cohen. O amarelo/dourado indica o carácter ardente da paixão, tendo um significado duplo: cor do ouro de essência divina; cor da terra simbolizando o Verão e o Outono, anunciando a velhice, o Outono e a proximidade da morte.
Maria Monforte e Maria Eduarda conjugam o vermelho (leque negro [negro conotado com morte e luto] pintado com flores vermelhas, sombrinha escarlate) com o amarelo/dourado (cabelos de ouro), pelo que, tanto simbolizam a vida como a morte, o divino e o humano.
Afonso vê Pedro e Maria Monforte juntos num passeio. Maria Monforte traz um vestido cor-de-rosa que cobria os joelhos de Pedro, condizendo com as fitas do chapéu, também cor-de-rosa, simbolizando a vida romântica em que Pedro se deixou enlear. O azul dos olhos de Maria que, embora azuis da cor do céu, eram de um “azul sombrio” prevendo sombras, tristezas e complicações para este amor. O caminho por onde estes passeavam era verde e fresco, mas a ramagem que o circundava pareceu, a Afonso, de um verde triste, prenunciando luto e tristeza que ensombraria aquela união; embora o verde seja símbolo da primavera, e por isso devia ser alegre, este verde é sombrio, pressagiando que a primavera da vida de Pedro também vai ser sombria. A sombrinha vermelha que envolvia Pedro lembrou a Afonso “uma larga mancha de sangue” em que, de facto, Pedro vai morrer. O presságio do sangue pode ainda ser visto à luz dos netos de Afonso que, sendo do mesmo sangue, se vão envolver numa relação incestuosa, manchando a honra familiar dos Maias.
Durante as corridas de cavalo, Carlos que apostara em Vladimiro, uma pileca, acaba por ganhar várias apostas, quando vai cobrar a dívida à ministra da Baviera que lhe diz, em tom de presságio “Vous connaissez le proverbe: heureux au jeau...” azar no amor. De facto, Carlos pode ter sorte ao jogo, mas acaba por falhar no amor ao se apaixonar pela própria irmã.
A obra afasta-se dos postulados naturalistas, submetidos a um forte racionalismo, ao aceitar e introduzir uma entidade transcendente que tudo faz para destruir Carlos e Maria Eduarda, depois de os ter aproximado. O destino compraz-se, assiste atento e ciumento, à felicidade do par e, quando nada o fazia prever, aparece abertamente através do Sr. Guimarães.
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