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Para educadores - Gestão escolar
Escrito por Geidson da Silva Neves   
Qui, 22 de Janeiro de 2009 16:01

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Matemática: desempenho melhorou mas ninguém sabe como

Eis um problema novo para o governo: descobrir por que os alunos de 4ª série tiveram o melhor desempenho em Matemática da última década
fonte: CNTE (16.11.2008\0
reproduzido a partir de matéria publicada na revista Época, desta semana

 

Foi uma surpresa até para o Ministério da Educação. Uma análise, ainda inédita, do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostrou que o desempenho dos alunos da 4ª série em Matemática foi o melhor em uma década. Foi ele o principal responsável pela melhora do Ideb, comemorada pelo governo em junho. O avanço do índice era previsto pelo programa para melhora contínua da educação. Mas a aposta era que o bom resultado viesse em Português - a disciplina que recebeu a maior parte dos investimentos e esforços por meio dos programas de alfabetização.

 

"O salto em Matemática foi maior do que esperávamos, vamos fazer uma pesquisa para avaliar as razões dessa melhora", diz o economista Reynaldo Fernandes, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo cálculo do Ideb. Foi ele quem projetou as metas para a evolução da qualidade da educação no longo prazo. Aumentando um pouco a cada ano, o Brasil poderá chegar a 2022 com Ideb 6 - o equivalente à média dos países desenvolvidos. O Ideb leva em conta as notas de Português e Matemática e a taxa de aprovação dos alunos. Ainda estamos longe da meta. Na escala de 0 a 10, o Brasil pulou de um Ideb 3,8 em 2005 para 4,2 em 2007.

 

Quando esse resultado foi divulgado, muitos críticos levantaram a suspeita de que a nota havia subido com artifícios. As cidades teriam facilitado a aprovação de alunos despreparados. A análise do Inep mostrou que o aumento no número de aprovações foi significativo: ele respondeu por 40% do aumento do Ideb. Mas a melhora em Matemática foi mais importante. Respondeu por 46% do aumento no índice. E Português apenas 14%.

 

Com a melhora em Matemática, os alunos brasileiros de 4a série finalmente alcançaram a nota de 1995. Naquele ano, o sistema de ensino começava a sentir os impactos da universalização do ensino, promovida pelo governo FHC. Com a entrada de mais alunos carentes nas escolas e a falta de estrutura para acolhê-los, as notas diminuíram. A recuperação fez a média dos alunos de 4ª série chegar a 193, numa escala de 0 a 500 usada pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Ainda é um número baixo. A recomendação de especialistas para a 4ª série é de 225 pontos.

 

 

Poucos especialistas arriscam dar explicações para o avanço. "Há um movimento por um ensino de Matemática mais próximo da realidade do aluno, com menos decoreba e mais problemas de raciocínio", diz o matemático Paulo Figueiredo, presidente da Sociedade Brasileira de Educação Matemática. "Mas é muito difícil saber se foi essa a causa do avanço, porque esse movimento já existe há anos." O único sentido que a evolução aponta, pelo menos por enquanto, é em direção aos Estados que tinham as piores notas em 2005. Em geral, houve melhora onde era mais fácil melhorar. "Nos lugares muito defasados, medidas simples, como a organização das aulas e a comunicação entre os professores, fazem muita diferença", afirma Romualdo Portela, especialista em educação da Universidade de São Paulo. Os Estados que mais evoluíram foram Piauí, Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte, os que tinham piores notas no Saeb 2005. Nos Estados que tinham média maior, a melhora foi residual.

 

Romualdo compara a melhora em Matemática no Nordeste ao efeito da campanha do soro caseiro, para combater a desidratação. A receita da pitada de sal e um punhado de açúcar foi considerada um dos principais fatores na redução da mortalidade infantil da década de 80. Uma campanha simples e barata que salvou milhares de crianças. "Uma política meramente informativa, que não requer aparato do Estado e tem efeito onde a situação é precária."

 

No caso do ensino, nem mesmo se sabe o que foi a pitada de sal e o punhado de açúcar. Se os gestores da educação não sabem que medidas levaram à evolução, como podem dar continuidade aos resultados? Até para manter a nota como está, sem risco de regressão, é preciso diferenciar as ações que funcionaram, e podem ser expandidas, daquelas que não tiveram impacto e devem ser cortadas. Para Ruben Klein, especialista em avaliação educacional e consultor da Fundação Cesgranrio, o risco é achar que está tudo bem e relaxar. "Acompanhei a capacitação dos professores em cidades onde, quando os resultados saíam, acabava-se com o programa. E aí os resultados voltavam a cair. Em educação, se parar, volta tudo para trás." Ele conta que não é difícil encontrar professores que não sabem o conteúdo que devem ensinar, como converter fração em decimal.

 

A euforia com o cumprimento de metas parciais do Ideb pode ser contraproducente. O governo federal veiculou uma propaganda na TV sobre o acréscimo nacional do Ideb, e alguns municípios comemoraram os avanços locais com faixas e outdoors. "Isso é auto-ilusão. Os gestores municipais estão achando que basta fazer mais do mesmo e os números vão continuar subindo. Isso não vai funcionar", diz João Batista Araújo e Oliveira, doutor em educação pela Florida State University e ex-secretário-executivo do Ministério da Educação no governo FHC. Para ele, as metas intermediárias não indicam, necessariamente, uma tendência de melhora. "Nos países onde houve reformas educacionais de sucesso, os resultados são sempre em resposta a um grupo de estratégias, uma tecnologia nova, um sistema de livros, atração dos professores." Sem uma intervenção mais forte, diz, dificilmente a melhora do Ideb vai se sustentar.

 

Embora nem todos os educadores sejam tão críticos em relação às metas intermediárias, há um consenso de que o país precisa de ações mais ousadas para alcançar a média dos países desenvolvidos. O Ideb é apenas um termômetro, que não teria a capacidade de baixar a febre da educação. "O diagnóstico está bem claro, o problema agora é reagir", afirma Mozart Ramos, diretor do Todos pela Educação, uma organização de empresários e profissionais que trabalha pela melhora dos índices de qualidade do ensino. Desde que o Ideb foi criado, em abril de 2007, o governo federal lançou uma série de ações para a educação. As principais foram a ampliação de vagas para formação de professores nas universidades federais, investimento na capacitação dos professores de alfabetização que já estão na ativa, ajuda técnica para os municípios com as piores notas e a aprovação do piso salarial para o professor. Estimulados pelas metas, Estados e municípios também se mexeram. São Paulo, por exemplo, unificou o material didático de Português e Matemática e criou suas próprias metas para dar bônus aos professores.

 

O movimento foi criado, mas as ações ainda são tímidas perto das tomadas pelos países que conseguiram atingir bons níveis de ensino. Segundo um estudo da consultoria McKinsey, que analisou os dez países com as melhores notas e os dez países que mais melhoraram seu desempenho, uma das medidas de maior impacto é tornar a carreira do professor atraente. Só assim será possível selecionar profissionais entre os melhores graduandos. É o que fez Cingapura. A carreira de professor lá tem tanto prestígio que o país seleciona os candidatos para a rede pública entre os 30% melhores alunos. Desses, só um em cada seis é contratado. No Brasil, 39% dos professores que dão aula da 1a à 4a série não têm ensino superior. Só entre os responsáveis pelas aulas de Matemática, há 20 mil que não têm formação específica na área que ensinam - uma exigência da lei. São professores de Matemática formados apenas em Pedagogia. Em vez de atrair os bons professores, o país parece espantá-los. Segundo dados da Fuvest, que seleciona os alunos para a graduação na USP, a procura pelos cursos de Pedagogia e Letras foi uma das que mais caíram nos últimos três anos.


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Autor deste artigo: Geidson da Silva Neves

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